FESTIVAL TERRAS SEM SOMBRA SEGUE RUMO A BEJA-CAPITAL

capella-duriensisBéla Bartók, um dos compositores mais originais e mais versáteis da primeira metade do século XX, e a polifonia portuguesa dos séculos XVI e XVII dão o mote para o concerto que marca, finalmente, o regresso à capital do Baixo Alentejo de um festival nascido à sombra dos monumentos e das tradições musicais da cidade. A igreja de Santa Maria da Feira, matriz da cidade, um espaço privilegiado para a interpretação de repertórios polifónicos, acolhe esta iniciativa histórica. O Sagrado e o Profano: Aliterações Húngaro-Portuguesas, o título escolhido, põe em destaque um património europeu comum aos dois países, unidos por laços plurisseculares, entre os quais se destaca a herança do Cristianismo.

 

A 10.ª edição do Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo iniciativa do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, terá um dos seus momentos altos a 10 de Maio, pelas 21h30, com a subida ao palco do ensemble Capella Duriensis, sob a direcção musical do maestro britânico Jonathan Ayerst. O programa interpretado dá ênfase ao húngaro Béla Bartók (Nagyszentmiklós, cidade desde 1920 em território romeno, 1881-Nova Iorque, 1945) e aos portugueses João Lourenço Rebelo, mestre da Capela do Paço Ducal de Vila Viçosa, Pêro de Gamboa, mestre da Capela da Sé de Braga, e Fr. Manuel Cardoso, mestre da Capela do Convento do Carmo de Évora.

Muito variado em termos de carácter e conteúdo, o ciclo de peças de Bartók que vai ser apresentado apresenta uma sequência de cenas e imagens musicais tocantes, evocando elementos da Natureza e, particularmente, da temática da separação e do próprio sentimento de abandono. As primeiras canções populares do mestre húngaro para coro, compostas entre 1910 e 1917, evidenciam características técnicas similares: a conservação da melodia original, atribuída à voz superior, mas arranjada com uma harmonia simples. Durante a I Guerra Mundial, Bartók, declarado inapto para o serviço militar, Bartók estaria presente no esforço de guerra para recolher canções populares entre os soldados, na região central da actual Eslováquia, o que se tornou uma fonte inesgotável de inspiração.

Esta brilhante série de canções populares terá por contraponto algumas das mais belas páginas da nossa polifonia, com realce para as obras de João Lourenço Rebelo (1610-61), destacado compositor português da transição do Maneirismo para o Barroco. Quando concluiu os estudos na Capela do Palácio Ducal de Vila Viçosa, onde havia sido admitido em 1624 como menino de coro, foi nomeado seu mestre. O estatuto de protegido do rei D. João IV permitiu-lhe usufruir de excelentes condições de trabalho. Tomou assim contacto com técnicas e estilos que então floresciam entre os compositores estrangeiros, o que teve implicações no seu próprio desenvolvimento estilístico.

Pêro de Gamboa (1563?-1638), compositor sobre o qual restam escassos dados biográficos, foi um dos principais representantes da geração de polifonistas que floresceu em Portugal a partir do final do século XVI. Numa época em que a prática polifónica vocal se generalizava nas catedrais portuguesas, actuou, entre ca. 1585 e 1594, como Mestre de Capela na Sé de Braga, instituição que, a par das congéneres de Coimbra e, particularmente, de Évora, se destacava no referido processo, nomeadamente pela liturgia imponente, associada ao seu estatuto de Sé Primaz das Espanhas, uma dignidade que disputou com Toledo.

No quadro da Escola de Évora, Fr. Manuel Cardoso (1566-1650), provavelmente o mais original dos polifonistas da sua geração, evidenciou um estilo que se destaca pela intensidade emocional. Nele, a ciência contrapontística alia-se a uma linguagem expressiva bastante individual. Mestre de Capela no Convento de Nossa Senhora do Carmo, durante mais de 60 anos, foi o compositor português da época que maior número de livros editou em vida, deixando publicados cinco volumes de obras polifónicas.